sexta-feira, 28 de novembro de 2025

Conexão niilista

Bugonia
 
(dramédia,
 IRE/UK/USA/KOR
, 2025)
de Yorgos Lanthimos.
 
  
 
por Paulo Ayres

A tragédia grega Kynodontas (2009) tinha todo o perfil para ser arte degradante, mas Yorgos Lanthimos salva o filme nos detalhes, colocando uma guinada subversiva como fator de destaque na reta final. Com Bugonia, ocorre algo relativamente invertido. O niilismo brota de uma metáfora com potencial de indicação de carga até realista. Veja bem, é algo que remete em parte a They Live (1988), de John Carpenter. Uma elite alienígena disfarçada enquanto corporação e isso ilustrando domínio, exploração e problemas sociais. No entanto, essa premissa é sacrificada num caminho tortuoso com direito a um apocalipse cínico no desfecho.
 
Depois do folhetim realista Poor Things (2023), Lanthimos lança um drama niilista de ficção científica. Apesar da presença de Emma Stone no destaque, Bugonia tem mais a ver com The Killing of a Sacred Deer (2017), um tríler mágico com tom fúnebre. Até a presença coadjuvante de Alicia Silverstone.

O jogo que Bugonia propõe é deixar em dúvida se a teoria da conspiração do sequestrador e seu ajudante é legítima ou não. Ou melhor, até certo ponto tudo leva a crer que seja apenas uma sandice nociva de um caipira com transtornos mentais. Porém, um linha paralela vai abrindo a possibilidade de que é tudo verdade mesmo e estamos numa dramédia espacial. Lanthimos opta pelo especulação ficcional, mas não a deixa palatável para a crítica anticapitalista. Na verdade, potencializa essa última (ultra)romanticamente até o ponto que se torna uma crítica abstrata sobre a civilização. Em Bugonia, a humanidade no sentido universal é sequestrada metaforicamente para criar um conto de culpabilização em massa e sem contextualização. O sacrifício familiar do tríler de 2017 é expandido ao extremo na dramédia em matéria de sujeito coletivo.
 
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Lista de sci-fi dramedy no subgênero space fiction:
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