(dramédia,
KOR/USA, 2017)
de Bong Joo Ho.
por Paulo Ayres
Algo importante para o uso do CGI em Okja é o tato. É justamente o toque o recurso usado em cena que possibilita um envolvimento maior do que o de costume no uso abundante da computação gráfica. A criatura, numa interação íntima — principalmente com a garota Mija (Ahn Seo-hyun) —, ganha um corpo que preenche o quadro de forma vitalizada.
Pois bem, Okja é uma dramédia de Bong Joo Ho e, assim sendo, é perceptível o cuidado dramático na concepção da narrativa, mesmo havendo uma estilização em certos elementos. O filme da Netflix apresenta um fio condutor na relação entre a menina e a superporca, havendo uma separação como dilema interior. Nesse sentido, a primeira parte funciona como um estabelecimento da proximidade — afetiva e literal — entre animal e Mija. Dormir em cima da leitoa transgênica é, então, símbolo do elo que é rompido para a aventura ter lugar. Quando surgirem na tela inúmeros superporcos, no final no abatedouro, a vitória do bem é ontologicamente relativizada, pois uma quantia imensa da espécie não terá a mesma sorte da porca de estimação. O drama edificante se fecha modestamente no retorno à Coreia do Sul, com o rastro da luta anticapitalista como um dado paralelo.
Parte da história, Okja reserva um lugar para um grupo de ativistas da liberação animal. A eco-dramedy realiza uma trajetória que acompanha o grupo anarquista, liderado por Jay (Paul Dano), deixando para o fim o impacto do local de abate e um frigorífico funcionando. É, de certo modo, um filme que problematiza a indústria da carne. Na outra ponta do enredo, ilustrando esse indústria, está a Corporação Mirando. Patrimônio de gêmeas capitalistas feitas por Tilda Swinton.
O clímax está no abatedouro, mas a parte mais irônica está nos bastidores de marketing da megaempresa. É lá que emerge a ideia de trazer a menina publicitariamente para compor parte do evento de divulgação. Bong sabe como extrair esse tipo de humor corporativo.
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