por Paulo Ayres
Há um monte de imagens de câmeras de monitoramento em Glass e elas são mais que um recurso de variação de enquadramento. Elas terão um papel central na resolução da trama e mais que isso: possuem um significado de reflexo do tempo em que as imagens via celular são proliferadas numa nova geração de informação. É algo, por exemplo que não havia ainda em Unbreakable (2000), primeiro tríler da trilogia de M. Night Shyamalan. Split (2016), segundo tríler da trilogia, está mais próximo do terceiro na cronologia, porém tem outra proposta quando se fecha na questão da identidade pessoal. Glass também fala de identidade, mas de maneira ampla, no sentido de uma comunidade marginalizada querendo ser notada e, como força oposta na manutenção do status quo, é revelada uma associação secreta. Mais que viradas de roteiro típica do diretor, o desfecho de Glass é a amostra de ordem querendo prevalecer e sucumbindo a um triplo sacrifício redentor.
O tema do gênero do super-herói dos quadrinhos está presente. Curiosamente, Glass é uma conclusão mais saturada desse desejo de super-humanos com vestuário extravagante. O tom paciente e minucioso de Shyamalan continuou seu drama edificante como uma sombria história de origem. Uma que parece não ter fim, pois o mundo retratado justamente concebe os super-heróis (e supervilões) como produto fictício. Logo todo movimento de apresentação continua lá, desta vez transferido para uma clínica psiquiátrica onde os três super-humanos aparecem como elementos juntados numa tríade fabulosa. A sala lilás, quando os três são interrogados juntos pela Dra. Ellie Staple (Sarah Paulson), surge como símbolo do elemento que se destaca no título: Mr. Glass (Samuel L. Jackson). É ele a mente que almeja a exposição para além do monitoramento do local e consegue um aliado tático em outro vilão, o Horda (James McAvoy). Elijah Price/ Mr. Glass é também um especialista em HQ. E Glass é uma dramatização que funciona. Mesmo quadrinhos de super-heróis sendo sátiras, geralmente folhetinescas.
Tal como um Robin, David Dunn (Bruce Willis) tem seu parceiro juvenil, no caso, o próprio filho que se comunica à distância e auxilia o justiceiro nas localizações. Trajado com uma capa de chuva, o inquebrável é filmado como um vulto imponente por Shyamalan. O enquadramento do diretor, por outro lado, também sabe dramatizar até a fragilidade visível. Destaque nesse sentido é que, para além de uma grande caixa d'água, a câmera do diretor também se mostra dentro de uma poça de água. A conhecida variação de ângulos do cineasta contribui para Glass manter certa solenidade, mesmo com o dito impulso de fantasia — no duplo sentido de uniforme e de filiação de gênero temático.
No tríler sobrenatural The Sixth Sense (1999), o mal é visível apenas para um garotinho que vê fantasmas. No eco-thriller The Happening (2008), o mal é invisível aos olhos de todos. Em Glass, um magical thriller, a questão passa pela validação de muitos olhares como forma de ter a existência sentida na sociedade.
= = =

Nenhum comentário:
Postar um comentário