segunda-feira, 5 de janeiro de 2026

Tela antidialética

The Truman Show

(folhetim,
USA, 1998)
de Peter Weir.
 
 

por Paulo Ayres

A cidadezinha de Seaheaven é um microcosmo que espelha a vida contemporânea num enredo em que a aparência esconde a essência da organização social. Até aí revisitar The Truman Show é perceber um roteiro inteligente que apanhou a tendência histórica do reality show no seu alvorecer. No entanto, como uma obra limitada por certas condições, o que se mostra também é um folhetim marcado por contradições entre sua vontade de ironizar e de aceitar os códigos satirizados.
 
Truman (Jim Carrey) vive em um mundo artificial. Uma espécie de iconografia pequeno-burguesa que traduz uma vida cotidiana pacata e controlada. Ele é casado com Meryl (Laura Linney) e tem um melhor amigo chamado Marlon (Noah Emmerich). Sua vida toda é mostrada num programa de TV 24 horas por dia durante décadas. Truman é o único ali que não segue um roteiro definido, mas, através de sugestões, mantém a sua vivência numa certa trilha predeterminada pela produção do programa. Somente nessa premissa já há uma sinalização do esforço criativo com ares de subversão. 

Há pieguice em duas camadas. Primeiro, aquela que é objeto direto da ironia, como na cena em que Truman reencontra o pai e vemos todo um arsenal sentimental ser comandado pelo diretor Christof (Ed Harris) para que o público se emocione. É um momento em que Hollywood observa a si mesma nas entrelinhas. Esse nível representa o que o folhetim tecnológico tem de mais promissor enquanto criatividade. Ao mostrar um público vendo televisão há um desdobramento metalinguístico que comenta a feitura típica do entretenimento de massas. Entretanto, há outra camada que o próprio filme assume como elemento não ironizado e que indica um caminho de afirmação do material. A jornada do herói vibra na frequência daquilo que foi mostrado na manipulação. Deste modo, temos o desdobrar da trama em duas posições conflitantes, nas quais uma é o diretor real, Peter Weir, que se comporta como o criador Christof, ao comandar uma trajetória emotiva.

Para além da limitação da sátira edificante, The Truman Show é uma ficção científica que ironiza a publicidade. O modo de vida retratado é como um catálogo de compras.
 
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