quarta-feira, 7 de janeiro de 2026

Ontologia orgânica

Okja

(dramédia,
KOR/USA, 2017)
de Bong Joo Ho.

 

por Paulo Ayres

Algo importante para o uso do CGI em Okja é o tato. É justamente o toque o recurso usado em cena que possibilita um envolvimento maior do que o de costume no uso abundante da computação gráfica. A criatura, numa interação íntima — principalmente com a garota Mija (Ahn Seo-hyun) —, ganha um corpo que preenche o quadro de forma vitalizada.

Pois bem, Okja é uma dramédia de Bong Joo Ho e, assim sendo, é perceptível o cuidado dramático na concepção da narrativa, mesmo havendo uma estilização em certos elementos. O filme da Netflix apresenta um fio condutor na relação entre a menina e a superporca, havendo uma separação como dilema interior. Nesse sentido, a primeira parte funciona como um estabelecimento da proximidade — afetiva e literal — entre animal e Mija. Dormir em cima da leitoa transgênica é, então, símbolo do elo que é rompido para a aventura ter lugar. Quando surgirem na tela inúmeros superporcos, no final no abatedouro, a vitória do bem é ontologicamente relativizada, pois uma quantia imensa da espécie não terá a mesma sorte da porca de estimação. O drama edificante se fecha modestamente no retorno à Coreia do Sul, com o rastro da luta anticapitalista como um dado paralelo.

Parte da história, Okja reserva um lugar para um grupo de ativistas da liberação animal. A eco-dramedy realiza uma trajetória que acompanha o grupo anarquista, liderado por Jay (Paul Dano), deixando para o fim o impacto do local de abate e um frigorífico funcionando. É, de certo modo, um filme que problematiza a indústria da carne. Na outra ponta do enredo, ilustrando esse indústria, está a Corporação Mirando. Patrimônio de gêmeas capitalistas feitas por Tilda Swinton.

O clímax está no abatedouro, mas a parte mais irônica está nos bastidores de marketing da megaempresa. É lá que emerge a ideia de trazer a menina publicitariamente para compor parte do evento de divulgação. Bong sabe como extrair esse tipo de humor corporativo.   

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terça-feira, 6 de janeiro de 2026

Sátira sociológica

 A Dog's Life 
 
(farsa,
USA, 1918)
de Charlie Chaplin.
 
  

por Paulo Ayres

O ponto de vista dos marginalizados, que Charlie Chaplin tanto mostra em seus filmes, se expande até a questão animal em A Dog's Life. É uma sociedade capitalista em que há uma massa de reserva nas ruas e em filas da procura de emprego. A farsa acompanha o protagonista que dorme numa data vazia e faz um paralelo com uma cadela de rua. Os dois personagens se unem na questão da sobrevivência, compartilhando o estilo de vida presente no sentido figurado do título do filme.

A Dog's Life é uma sátira edificante sobre uma carteira cheia de dinheiro que rende algumas situações para a performance humorística. Envolve uma casa de espetáculo, dois ladrões e alguns guardas. No entanto, é na dupla principal que está a chave para o desdobramento do enredo. O animal consegue ser filmado gerando piadas visuais. Por exemplo, quando desenterra a carteira e joga terra na direção de Chaplin. É um tipo de humor que funciona na medida que o cinema mudo poderia oferecer de mais sofisticado para a época.
 
Retrato de um mundo cão, a farsa revela, como nos melhores filmes do autor, uma sociedade fria em que o humor brota de diversos choques de classes. Obviamente, como de costume no cinema de Chaplin, um calor humano é possível como horizonte aberto.

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segunda-feira, 5 de janeiro de 2026

Tela antidialética

The Truman Show

(folhetim,
USA, 1998)
de Peter Weir.
 
 

por Paulo Ayres

A cidadezinha de Seaheaven é um microcosmo que espelha a vida contemporânea num enredo em que a aparência esconde a essência da organização social. Até aí revisitar The Truman Show é perceber um roteiro inteligente que apanhou a tendência histórica do reality show no seu alvorecer. No entanto, como uma obra limitada por certas condições, o que se mostra também é um folhetim marcado por contradições entre sua vontade de ironizar e de aceitar os códigos satirizados.
 
Truman (Jim Carrey) vive em um mundo artificial. Uma espécie de iconografia pequeno-burguesa que traduz uma vida cotidiana pacata e controlada. Ele é casado com Meryl (Laura Linney) e tem um melhor amigo chamado Marlon (Noah Emmerich). Sua vida toda é mostrada num programa de TV 24 horas por dia durante décadas. Truman é o único ali que não segue um roteiro definido, mas, através de sugestões, mantém a sua vivência numa certa trilha predeterminada pela produção do programa. Somente nessa premissa já há uma sinalização do esforço criativo com ares de subversão. 

Há pieguice em duas camadas. Primeiro, aquela que é objeto direto da ironia, como na cena em que Truman reencontra o pai e vemos todo um arsenal sentimental ser comandado pelo diretor Christof (Ed Harris) para que o público se emocione. É um momento em que Hollywood observa a si mesma nas entrelinhas. Esse nível representa o que o folhetim tecnológico tem de mais promissor enquanto criatividade. Ao mostrar um público vendo televisão há um desdobramento metalinguístico que comenta a feitura típica do entretenimento de massas. Entretanto, há outra camada que o próprio filme assume como elemento não ironizado e que indica um caminho de afirmação do material. A jornada do herói vibra na frequência daquilo que foi mostrado na manipulação. Deste modo, temos o desdobrar da trama em duas posições conflitantes, nas quais uma é o diretor real, Peter Weir, que se comporta como o criador Christof, ao comandar uma trajetória emotiva.

Para além da limitação da sátira edificante, The Truman Show é uma ficção científica que ironiza a publicidade. O modo de vida retratado é como um catálogo de compras.
 
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Lista de sci-fi feuilleton no subgênero techno-fiction:

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domingo, 4 de janeiro de 2026

Associação secreta

 Glass
 
(tríler,
USA, 2019)
de M. Night Shyamalan.
 


por Paulo Ayres

Há um monte de imagens de câmeras de monitoramento em Glass e elas são mais que um recurso de variação de enquadramento. Elas terão um papel central na resolução da trama e mais que isso: possuem um significado de reflexo do tempo em que as imagens via celular são proliferadas numa nova geração de informação. É algo, por exemplo que não havia ainda em Unbreakable (2000), primeiro tríler da trilogia de M. Night Shyamalan. Split (2016), segundo tríler da trilogia, está mais próximo do terceiro na cronologia, porém tem outra proposta quando se fecha na questão da identidade pessoal. Glass também fala de identidade, mas de maneira ampla, no sentido de uma comunidade marginalizada querendo ser notada e, como força oposta na manutenção do status quo, é revelada uma associação secreta. Mais que viradas de roteiro típica do diretor, o desfecho de Glass é a amostra de ordem querendo prevalecer e sucumbindo a um triplo sacrifício redentor.

O tema do gênero do super-herói dos quadrinhos está presente. Curiosamente, Glass é uma conclusão mais saturada desse desejo de super-humanos com vestuário extravagante. O tom paciente e minucioso de Shyamalan continuou seu drama edificante como uma sombria história de origem. Uma que parece não ter fim, pois o mundo retratado justamente concebe os super-heróis (e supervilões) como produto fictício. Logo todo movimento de apresentação continua lá, desta vez transferido para uma clínica psiquiátrica onde os três super-humanos aparecem como elementos juntados numa tríade fabulosa. A sala lilás, quando os três são interrogados juntos pela Dra. Ellie Staple (Sarah Paulson), surge como símbolo do elemento que se destaca no título: Mr. Glass (Samuel L. Jackson). É ele a mente que almeja a exposição para além do monitoramento do local e consegue um aliado tático em outro vilão, o Horda (James McAvoy). Elijah Price/ Mr. Glass é também um especialista em HQ. E Glass é uma dramatização que funciona. Mesmo quadrinhos de super-heróis sendo sátiras, geralmente folhetinescas.

Tal como um Robin, David Dunn (Bruce Willis) tem seu parceiro juvenil, no caso, o próprio filho que se comunica à distância e auxilia o justiceiro nas localizações. Trajado com uma capa de chuva, o inquebrável é filmado como um vulto imponente por Shyamalan. O enquadramento do diretor, por outro lado, também sabe dramatizar até a fragilidade visível. Destaque nesse sentido é que, para além de uma grande caixa d'água, a câmera do diretor também se mostra dentro de uma poça de água. A conhecida variação de ângulos do cineasta contribui para Glass manter certa solenidade, mesmo com o dito impulso de fantasia — no duplo sentido de uniforme e de filiação de gênero temático.

No tríler sobrenatural The Sixth Sense (1999), o mal é visível apenas para um garotinho que vê fantasmas. No eco-thriller The Happening (2008), o mal é invisível aos olhos de todos. Em Glass, um magical thriller, a questão passa pela validação de muitos olhares como forma de ter a existência sentida na sociedade.   

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terça-feira, 23 de dezembro de 2025

Cidade maravilhosa

Billi Pig 
 
(comédia,
BRA, 2012)
de José Eduardo Belmonte.
 

 
por Paulo Ayres

Comédia de José Eduardo Belmonte, Billi Pig tem um enredo voltado à espera de um milagre. Entre uma corretora de seguros e uma funerária, o que movimenta mesmo os acontecimentos é algo que transcende esses espaços.

O Rio de Janeiro de Billi Pig oferece três atos musicais. Um deles bem ao estilo clássico da ficção mágica em que há uma suspensão da narrativa para a coreografia de todos do cenário. O momento com a canção “Menina do Subúrbio”, no entanto, é apenas um de um conjunto de magia. Há até fantasmas na trama, como a mãe do Padre Roberval (Milton Gonçalves). São detalhes perto da posição central do boneco de porco falante que só é ouvido por Marivalda (Grazi Massafera). Justamente ela que sonha em ser atriz, como diz a canção mencionada.

Billi Pig é uma sátira edificante que segue Wanderlei (Selton Mello), um malandro do bem, na sua tentativa de dar o luxo para a mulher. Belmonte, nesse sentido, criou uma cidade em que a mesmice oferece maravilhas de forma discreta. Um filme que ostenta nos detalhes da trama.

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sexta-feira, 28 de novembro de 2025

Capital variável

 Vale Tudo

(folhetim, 
BRA, 2025)
de Manuela Dias.



por Paulo Ayres
 
Tendo como ponto de partida a cidade paranaense de Foz do Iguaçu, a nova versão de Vale Tudo (1988–1989) cria uma fissura cada vez maior entre duas visões de mundo, rigidamente opostas. A mãe, mocinha batalhadora e empreendedora, Raquel Acioli (Taís Araújo), e a filha, encarnação do golpismo, Maria de Fátima (Bella Campos). Obviamente que esse contorno é salientado de propósito na versão de Manuela Dias, fazendo uso até de um silogismo que Raquel fala, dizendo que “quem mente rouba e quem rouba, mata”. Essa dualidade está posta com certa ironia numa novela com esse título e que tem até uma abertura que festeja a cultura brasileira no Rio de Janeiro ao som de “Brasil”, cantada por Gal Costa. Ou seja, trata-se desde o início de dar vez e voz a essas duas representações. Elas ganham um destaque próximo, mas Vale Tudo faz o espetáculo ter como holofote as velhas conquistas familiares e dos bons costumes no geral.
 
A repetição do mistério do folhetim anterior, “quem matou Odete Roitman?”, torna-se um protocolo, que até oferece um leque de possibilidades, mas não tem importância para a conclusão da sátira. Tanto é assim que Vale Tudo se permite terminar com reviravoltas com os vilões, mas que funciona como epílogos de parte dos núcleos que foram deslocados — incluindo um reencontro debochado de Fátima e César (Cauã Reymond). As festanças que celebram, entre outras coisas, as empresas Paladar e Tomorrow são um complemento da cena em que Ivan (Renato Góes) e seu pai (Luís Melo) conversam sobre o lado bom e honesto do Brasil que precisa ser mais divulgado. A megaempresa TCA se redime da sua corrupção.
 
Se Vale Tudo terminasse com o casamento de Fátima e Afonso (Humberto Carrão) — tendo a Solange (Alice Wegmann) dando o tapa e pegando os docinhos, que seja —, o folhetim histórico seria ousado. Com a liberdade de tornozeleiras eletrônicas de Marco Aurélio (Alexandre Nero) e Leila (Caroline Dieckmmann), o golpismo é separado como o desvio, principalmente a “fantasma” Odete (Débora Bloch). No fim das contas, Raquel torna-se o centro da novela que ela girou em torno numa espiral crescente.
 
Em economia política, capital variável é a parte do capital destinada à folha de pagamento dos salários. Em Vale Tudo, uma característica é haver também uma lista de pagamento paralela, funcionando por chantagem. Nesse aspecto, ficamos conhecendo o dilema do filho sobrevivente e escondido da família Roitman. Irmão gêmeo da Heleninha (Paola Oliveira), que, por sua vez, funciona como entrada do tema do alcoolismo na trama da sátira edificante. Galerias e Copacabana Palace à parte, os núcleos da direção artística de Paulo Silvestrini também retratam aquele bairro proletário que não pode faltar. O ponto de encontro no local é o bar do Vasco (Thiago Martins). Estabelecimento em que até Freitas (Luis Lobianco) tem a oportunidade de se destacar, para além de ser o capacho que mais ilustra a subserviência decorrente das rendas e das funções.   
 
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Conexão niilista

Bugonia
 
(dramédia,
 IRE/UK/USA/KOR
, 2025)
de Yorgos Lanthimos.
 
  
 
por Paulo Ayres

A tragédia grega Kynodontas (2009) tinha todo o perfil para ser arte degradante, mas Yorgos Lanthimos salva o filme nos detalhes, colocando uma guinada subversiva como fator de destaque na reta final. Com Bugonia, ocorre algo relativamente invertido. O niilismo brota de uma metáfora com potencial de indicação de carga até realista. Veja bem, é algo que remete em parte a They Live (1988), de John Carpenter. Uma elite alienígena disfarçada enquanto corporação e isso ilustrando domínio, exploração e problemas sociais. No entanto, essa premissa é sacrificada num caminho tortuoso com direito a um apocalipse cínico no desfecho.
 
Depois do folhetim realista Poor Things (2023), Lanthimos lança um drama niilista de ficção científica. Apesar da presença de Emma Stone no destaque, Bugonia tem mais a ver com The Killing of a Sacred Deer (2017), um tríler mágico com tom fúnebre. Até a presença coadjuvante de Alicia Silverstone.

O jogo que Bugonia propõe é deixar em dúvida se a teoria da conspiração do sequestrador e seu ajudante é legítima ou não. Ou melhor, até certo ponto tudo leva a crer que seja apenas uma sandice nociva de um caipira com transtornos mentais. Porém, um linha paralela vai abrindo a possibilidade de que é tudo verdade mesmo e estamos numa dramédia espacial. Lanthimos opta pelo especulação ficcional, mas não a deixa palatável para a crítica anticapitalista. Na verdade, potencializa essa última (ultra)romanticamente até o ponto que se torna uma crítica abstrata sobre a civilização. Em Bugonia, a humanidade no sentido universal é sequestrada metaforicamente para criar um conto de culpabilização em massa e sem contextualização. O sacrifício familiar do tríler de 2017 é expandido ao extremo na dramédia em matéria de sujeito coletivo.
 
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Lista de sci-fi dramedy no subgênero space fiction:
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